Os números Nicolinos - As Maçazinhas


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Excertos do livro "Guimarães e as Festas Nicolinas", Lino Moreira da Silva, 1991

O dia 6 de Dezembro é o dia em que a liturgia celebra o São Nicolau. Como dia mais importante que é, na tradição, não admira que lhe vá corresponder um dos números de mais belo e maior significado nas Festas Nicolinas: o cortejo das Maçazinhas.

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Onde poderá radicar a celebração das Maçazinhas ?

Os tradicionais números
As Ceias Nicolinas
O Pinheiro
As Novenas
As Posses
O Magusto
As Roubalheiras
O Pregão
As Maçazinhas
As Danças de S. Nicolau
O Baile Nicolino

Desde já se poderá dizer que, tal como os outros números integrados nas Festas dos Estudantes, este também não surgiu de um modo perfeito, acabado - mas antes teve o seu embrião do qual foi evoluindo a pouco e pouco, de forma a se tornar, anos com mais brilho e anos com menos, naquilo que temos hoje.

A sua origem terá de ser procurada no movimento romântico que, oriundo de países como a Inglaterra, a França e a Alemanha, entrou em Portugal para marcar alguma presença já no final do século XVIII, e com uma força incontrolada todo o século XIX português.

O movimento romântico arrastou consigo o apelo ao individualismo, à subjectividade, ao sentimentalismo, bem como o sonho do regresso à medievalidade, ao tempo dos castelos e da cortesia feudal, em que o homem se dizia um vassalo da mulher e se colocava aos seus pés homenageando a sua beleza.

O ambiente monárquico e tradicionalista que em Guimarães se vivia, com as suas memórias e os seus documentos, o seu Castelo e o Paço Ducal, a sua muralha e as suas torres, a inspiração medieval das suas ruas e praças, o cariz vincadamente conservador das suas gentes, acabou por interferir no surgimento de tão característico número nicolino.

E assim, pelas Nicolinas, passaram a reviver-se, com as indispensáveis adaptações, claro está, as justas e os torneios, as cavalgadas e os desafios, o cortejamento amoroso e a afectação, o fingimento e a festança.

E foi por estas vias que surgiu, integrado nas Festas Nicolinas, esse número tão cheio de graça e de simbolismo, em homenagem ao cavalheirismo e ao amor.

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Também será importante e propositado referir-se a existência de vestígios das "cerimónias do triunfo", à maneira de Roma, que a Idade Média também não esqueceu. Participavam na cerimónia carros enfeitados a rigor, carregando figurantes simbolizando os vencedores da guerra e os seus vencidos. O lugar de destaque era naturalmente dado aos vencedores.

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Procedia-se , no desfile do "triunfo", à apresentação de um número determinado de carros alegóricos, e nesse ponto poderemos encontrar um motivo mais de fundamentação para o cerimonial do cortejo das Maçãs. Igualmente na coroação dos príncipes se costumava proceder a "entradas" nas cidades com carros alegóricos triunfais. Foi exemplo célebre disso o que aconteceu em Paris com Henrique VI, em 2 de Dezembro de 1431.

E por mais de uma vez as Nicolinas apostaram em carros alegóricos.

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Tais "entradas" associavam-se muitas vezes a realizações de cariz religioso, com representações teatrais alusivas. Ora também por aqui se vê como tais manifestações culturais não poderiam deixar de influenciar umas festas de Estudantes com a antiguidade e a projecção que foi atingida pelas Festas Nicolinas.

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Ora foi então, a partir de uma mescla de influências de todos estes aspectos, que se formou o número nicolino das Maçazinhas.

Os Estudantes substituíram os antigos cavaleiros, pugnando pelas suas Damas, pela posse dilecta do seu coração. Já nada acontece como na Justa ou no Torneio, com um cavaleiro antagonizado com outro cavaleiro ou com grupos de cavaleiros. Agora, já é "cavaleiro" convivendo com "cavaleiro", Estudante acamaradando com outro Estudante, ambos solidarizados na mesma finalidade de fingimento, galanteio e diversão.

É possível até estabelecer-se uma certa relação entre os Estudantes e os Cavaleiros Andantes de outrora, esses que corriam à procura de aventuras e acabavam por perder a noção da realidade e o sentido das proporções.

E também o aparato das antigas Justas e Torneios tem agora paralelo no cortejo que os Estudantes formam.

Ou a cavalo (enquanto se não tornou anacrónico fazê-lo) ou então a pé, os Estudantes vestem a rigor o seu traje tradicional, cobrem-se com a capa, substituindo desse modo, e ajustadamente, os pesados fatos dos cavaleiros de outrora. Em seu tempo, foi também usada a máscara, na cerimónia das maçãs, com toda a carga simbólica já referida, nomeadamente no uso que lhe era dado nas relações da corte antiga.

E nenhum Estudante se deveria esquivar à participação na cerimónia, como deixam explícitos estes versos de um Pregão:

Nenhum se escuse, pois, todos se aprontem,
Ou seja a pé, ou a cavalo montem.
(Pregão de 1828)

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Algum do cerimonial das Maçazinhas, e até o modo de trajar dos Estudantes, tem ainda ligação com o que acontecia entre os romanos. Os Estudantes terão tomado contacto com esses dados culturais pela formação clássica que recebiam na escola. A partir de Sérvio Túlio, os jovens destinados a integrar a ordem equestre recebiam um cavalo e eram convocados para servir na cavalaria. A mesmo tempo que isso, eles passavam a usar uma toga de cerimónia, importada dos Sabinos (a "trabea"). No debrum da toga era colocada uma banda estreita de púrpura, símbolo da ordem da cavalaria (o "angusticlavus"). Era ainda colocado um anel no dedo do novo cavaleiro.

Ora a "trabea" ficou representada pela capa dos Estudantes e o "angusticlavus" foi substituído pelas fitas de seda às cores que os Estudantes fazem pender das lanças com que oferecem as maçãs às Damas. Essas fitas são, por seu lado, oferta feminina e ostentam muitas vezes inscrições bordadas e dedicatórias muitos especiais. O destaque principal vai para a fita do laço, aquela que, sendo mais comprida que as outras, envolve todas as demais. Ela é normalmente oferecida pela namorada, ou por alguém que (ainda) sem o ser não deixa de ter um lugar muito especial no coração do Estudante Nicolino. E por tradição é também a essa preferida que o Estudante estende a primeira maçã - pelo menos nas intenções, a mais coradinha de todas as maçãs ...

Foi da Justa que veio o uso da lança. Mas nesses tempos medievos a lança era aguçada, exibida para ferir, e até para matar. Como lhe rebater essa característica sem que (o que também não conviria) a lança deixasse de ser lança ? Nos Torneios, eram retirados à espada o gume e a ponta. Ora, nas Maçazinhas, introduziu-se o costume de anular a acutilância do gume da lança espetando nela uma maçã ...

Poderá perguntar-se por que se terá mantido a tradição da lança, num tempo em que a luta é apenas a fingir, e por que foi o fruto escolhido a maçã.

Ao contrário da espada sem gume e sem ponta, a lança foi feita para perfurar e rasgar - perfurar e rasgar o coração da mulher amada, obrigá-lo a abrir-se aos sentimentos de quem a levantava ao alto, e fazê-lo aderir ao jogo do amor. É essa uma boa explicação para a simbologia da lança na cerimónia das Maçazinhas.

Quanto à maçã, não se trata de uma maçã qualquer, mas de um tipo de maçã especial, pequenina e vermelhinha que, segundo a tradição, fazia também parte da antiga renda de Urgeses, tributada por Coreiros e Estudantes, que estes levavam de Urgeses para o Toural, para a repartirem pelas Damas.

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Mas além de tudo isto, a maçã é biblicamente o "fruto da perdição", dado tentadoramente por Eva a Adão, em nome de todas as mulheres de todos os tempos, para que a comesse.

Só que aqui é o homem a estender a maçã à mulher, invertendo-se o sentido da tentação. Poderemos encontrar alguma explicação para isto ?

Nos tempos mais recuados, a relação homem-mulher estabelecia-se num enquadramento bastante diferente do de hoje. Ou seja: o rigor educativo a que as jovens provincianas eram sujeitas, impedindo-as de se movimentarem livremente, marcava-as para toda a vida. Não aceitava a sociedade que a mulher tivesse a mesma liberdade de movimentos que o homem, e criou um conjunto de preconceitos a que ela teria necessariamente de se sujeitar, se não queria ver o seu nome sob rótulos de marginalidade.

Daí ser sempre difícil o relacionamento afectivo do homem com a mulher, salvo em ocasiões de festas, quase sempre religiosas, que desenvolveram precisamente com esse propósito uma componente profana modelar.

Com os Estudantes, naturalmente que a situação não era diferente da que acontecia com a juventude em geral. Não lhes era nada fácil, no quotidiano habitual, relacionarem-se com aquela por quem o seu coração se sentia atraído.

E a acrescentar a essa dificuldade de ordem social (que era sem dúvida a de peso maior), acrescia ainda o facto de as actividades escolares não permitirem também muito tempo disponível para a diversão. E o período das Festas Nicolinas sempre era uma espécie de pausa na rotina da escolaridade, uma espécie de férias que oficialmente ninguém admitia como tal, mas que todos se habituavam a tolerar.

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Pelas Nicolinas, às raparigas abria-se uma excepção. (...) O controlo que habitualmente era exercido pela família sobre a jovem, porque chegara a quadra das Nicolinas, abrandava necessariamente, e admitia-se para ela alguma tolerância.

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E era assim que, pelas Nicolinas, o relacionamento humano entre rapazes e raparigas acontecia menos timidamente que no quotidiano, com especial destaque para a tarde sempre memorável do 6 de Dezembro, dia de São Nicolau - como se porventura se estivesse a operar um outro, e não menos extraordinário, milagre do Santo.

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Ora o rapaz, oferecendo a maçã à rapariga, era como se estivesse a desafiá-la, para que ela se eximisse às apertadas vigilâncias desses tempos e desse ouvidos aos anseios do seu coração.

E poderia não acontecer uma correspondência afectiva directa daquele homem que estendia na ponta da lança a maçazinha corada a uma determinada mulher, mas ficava-se o simbolismo do acto: eram os Estudantes de Guimarães, todos eles à uma, a dirigir um convite de afectuosidade e simpatia às Damas de Guimarães, a todas as Damas !

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Os prémios do combate davam-nos as Damas aos Estudantes, vestindo os fatos de dias de festa, durante o desenrolar do cortejo, do alto das suas janelas. Era de lá que recebiam a dádiva dos Estudantes, as maçãs miudinhas, aproveitando o vaivém das compridas lanças para retribuir com pequeninos presentes, e como prova de carinho e consideração, a oferta das maçãs. Esses pequeninos presentes eram do género de cigarros, cigarreiras, chocolates, garrafinhas, bugigangas de estimação, botões de punho, gravatas, material de uso escolar, livros, canetas, pequenos objectos em prata, como sinetes, corta-papéis, etc.

Hoje os presentes já se mostram de cunho mais modesto, abundando sobretudo os chocolates, os rebuçados, as miniaturas de garrafas, as caricas, e outras coisas assim.

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O cortejo foi quase sempre imponente, constituído, à parte os grupos de Estudantes trajando a rigor, por carros alegóricos. A sua base de motivação eram quase sempre a cultura clássica e a mitologia greco-romana, que aliás os Estudantes bem conheciam pelo estudo do latim. (...) Esses carros possuíam um significativo peso cultural, e pelo modo como eram estruturados indiciavam terem sido preparados com grande responsabilidade. O guarda-roupa e os adereços eram previstos com todo o rigor, com fatos alugados para a ocasião, e muitas vezes mandados vir do Porto e até da capital. Os fatos escolhidos eram em regra impecáveis de luxo e caracterização.

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Participavam no cortejo das Maçãs tanto os Nicolinos Novos como os Velhos. Contudo, uns e outros faziam-no com motivações diferentes: os Velhos, recordando os tempos da juventude que passou, quando ocupavam os bancos da escola; e os Novos, vivendo uma situação incomum, experimentando emoções tão fortes que as não haveriam de esquecer jamais.

NOTA: Nos últimos anos a participação dos Velhos tem ocorrido quando o dia 6 de Dezembro coincide no calendário com um Domingo.