A organização educativa do tempo levantava grandes dificuldades. Imperava uma escola pouco tolerante e não empenhada em criar condições facilitadoras, o que obrigava impiedosamente os Estudantes ao recalcamento e à submissão.
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Também as estruturas sócio-económicas não se encontravam preparadas para hábitos de consumismo tão intensos como os de hoje. Em tempos recuados, o gozo da boa mesa e dos bons manjares era privilégio quase só de casas senhoriais, e dificilmente poderia ser desfrutada noutros ambientes. E os Estudantes, raramente habituados a esses luxos, agarravam-se às posses instituídas como a um salvatério. Juntavam então o útil ao agradável, tirando a barriga de misérias e, enquanto isso, aproveitavam para colocar uma pausa nos estudos, divertindo-se sob uma cobertura mais ou menos consentida pela sociedade e pela escola.
Quase todos compreendiam que, como mandava a tradição, nuns dias certos do ano os Estudantes dessem largas à sua jovialidade, exteriorizando sem complexos a natural alegria de viver, adequada ao estádio de desenvolvimento físico e psíquico em que se encontravam.
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E quem podia, sobretudo os proprietários de casas afidalgadas, abria aos Estudantes a porta da sua sala de jantar para conviver com eles à volta de uma mesa repleta de iguarias preparadas a propósito e com rigor. Outros, com menos possibilidades, mas com grande espírito de franqueza, ofereciam pequenas recordações aos Estudantes, que estes repartiam entre si e guardavam, divertindo-se igualmente ...
Enquanto cortejo, as Posses Nicolinas radicam nos "legados" auferidos pela Irmandade de São Nicolau e na mítica renda que os Estudantes iam levantar anualmente à Quinta de Urgeses. Daí que não admire que o levantamento dessa Posse se tenha ligado, durante muito tempo, à cerimónia das Maças, já que era em Urgeses que tinham origem as maças que os Estudantes distribuíam às Damas.
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Desde o século passado que as Posses nos aparecem documentadas de duas formas: enquanto realização distendida ao longo dos dias (ou das noites) de duração das Nicolinas, e as fixadas num dia só, levantadas com toda a pompa pelos Estudantes e partilhadas depois com os populares (pelo menos uma parte delas), durante a festa-convívio do Magusto.
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O principal motivo para a evolução por que passaram as Posses Nicolinas está em que os Estudantes de hoje deixaram de ter necessidade de "pedinchar" lanches melhorados.
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Apesar do significado que as Posses repartidas tinham para os Estudantes, eles foram dedicando ao cortejo das Posses concentrado num dia específico uma atenção especial. Essa cerimónia assumiu-se na tradição académica de Guimarães como um número de grandes relevo e simbologia. Através dele se desenvolvia um assinalável espírito de convivência entre os Estudantes e a população.
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Se nas noites de Posses repartidas tudo decorria de modo imprevisível, dirigindo-se os Estudantes às casas "do costume" para petiscar e conviver, no dia especificamente dedicado ao cortejo das Posses tudo era diferente. Com muita solenidade, saíam os Estudantes do Largo de D. Afonso Henriques, ali a quatro passos do Toural, por cerca das 20 horas com uma banda de música à frente, e archotes ao alto a arder e, passando pelo Toural e Rua de D. João I, dirigiam-se primeiro que tudo à Cruz de Pedra.
A Posse aí consistia no levantamento do mato, oferecido pelos Oleiros da Cruz de Pedra. Um dos mais conhecidos era o Rainha, de que fala Alberto Vieira Braga (em "De Guimarães: Tradições e Usanças populares", Espozende, 1924, pág. 19). Esse mato iria ser o combustível para a fogueira do Magusto. (...) Todos os oleiros do local contribuíam para a Posse, mas a condição que impunham era que a Filarmónica que abrilhantava o Cortejo das Posses executasse o Hino Escolástico, a pedido, à porta de cada um deles.
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Seguiam depois os Estudantes de rua em rua, em direcção aos locais da tradição, gritando pela Posse.
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A Posse do mato dada pelos Oleiros da Cruz de Pedra era uma posse antiga e importante, descendente da outra mais antiga instituída em tempos imemoriais pelo Cónego da Colegiada aos Coreiros e Estudantes.
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Segundo a tradição (sobre isto não é conhecido qualquer documento coevo que o confirme), foi um Cónego da Colegiada que legou em testamento uma dádiva anual aos Coreiros da Colegiada, que se instituiu como Posse. Dela usufruíram, a par dos Coreiros, também os Estudantes que conjuntamente com eles frequentavam as aulas de Latim na escola da Colegiada.
Essa "posse", recolhida na Casa da Renda, em Santo Estêvão de Urgeses, era constituída por castanhas e vinho, maçãs, tremoços, nozes e palha.
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Mais tarde, o ponto de partida (do Cortejo da Posse) passou a ser o Campo da Feira. Ao toque de bombos e caixas e à iluminação de archotes, seguiam os Estudantes a reclamar as posses instituídas, levando uma banda de música a abrir o cortejo.
Onde quer que se parasse para reclamar a Posse, tocava-se uma peça de música, sendo uma das privilegiadas, claro está, o Hino Escolástico. Eram dessa feita as Posses reclamadas com tambores e filarmónica. Havia mesmo quem se recusasse a facultar a Posse instituída, caso não fosse entoado no momento o Hino de São Nicolau.
Os autores da Posse, depois que ela foi pedida, enviavam pela mão de qualquer criado, ou em mão própria, ao Toural, aquilo a que havia direito. Os Estudantes incorporavam-se no Cortejo, e pelo caminho iam recreando os populares que se perfilavam à margem das ruas com momices, brincadeiras e jogos divertidos.
Também era feito pelos Estudantes o levantamento de algumas Posses directamente no local. Notabilizaram-se, nesse caso, as Posses que eram descidas de uma janela ou sacada, de um primeiro ou segundo andar, numa cesta de vime com auxílio de uma corda.
Os conteúdos das Posses eram os mais variados. Mais vulgarmente os populares facultavam aos Estudantes artigos que comprovadamente tinham a sua preferência, tais como vinho, pão-de-ló, chocolates, frangos, chouriços, presunto, aguardentes ...
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Posses havia que não passavam de provocação. (...) A Posse do Barroca. À passagem dos Estudantes debaixo da sua varanda, ele colocava nela uns tocos de vela acesos, de um e outro lado, e ao grito de "aí vai a posse !" baixava as calças, revelando, perante risos, assobios e piadas, as nádegas estremes.
Outras Posses havia que eram de só "treta". Foi o caso das denominadas "Posses Macarrónicas", que tinham lugar em certos locais da cidade, tendo adquirido notoriedade, nesse particular, a parte alta da Rua de Santa Maria, o Largo de Santa Clara e a Praça de São Tiago.
Depois das Posses, o que sobejava dos "comestíveis" que haviam sido recolhidos pelos Estudantes (e muito de tudo aquilo tivera origem nas mãos do próprio povo, e já com essa intenção) era reunido. Acendia-se a fogueira. Ia ter início o esperado Magusto de São Nicolau.
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